sábado, 20 de agosto de 2011

Uma pequena história



Tive um sonho hoje, um sonho onde um barco com enormes asas brancas foi impulsionado por mim e por outros num porto, navegou um pouco em alta velocidade e depois voou. Depois soube quando estive dentro do barco, que nele estava gravado em computadores de ultima geração toda a história do mundo. Eu poderia naquele momento saber sobre toda a história do mundo, mas pensei que isso levaria muito tempo e eu queria sair dali para simplesmente viver a minha vida, o piloto que parecia ter saído de um filme de ficção científica futurista me dizia que ele conhecia toda a história do mundo, mas eu não estava interessada, eu sabia no sonho que ao redor daquele barco só havia o nada e eu não me sentia muito à vontade com a idéia de viver dentro de um barco, lendo a história do mundo e tendo o nada ao redor. Eu queria voltar pra terra e viver. Tudo o que eu queria era viver a minha vida.

A crise veio há alguns meses atrás, com a ajuda da Argyreia Nervosa, que foi seguida a conclusão de uma prática conhecida como a busca do “Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião”. Eu havia sonhado pouco antes com o próprio Crowley me dizendo que os efeitos dessa operação poderiam ser caóticos, mas eu segui mesmo assim com a operação, pois eu estava ainda tendo uma visão romântica da prática. Talvez no final eu sonhasse com alguma criatura estranha ou com uma energia que iria me seguir e me guiar pelo resto da vida. Não que não tenha acontecido isso, mas com a ingestão do enteógeno o que me veio foi a visão de um ser totalmente fragmentado e com muita coisa para fazer na própria vida.

Nesse tempo entrei em lugares e participei de coisas e relacionamentos só para saber o que não queria ou o que não me servia. Com o passar dos dias, depois de uma forte crise onde até mesmo pensamentos suicidas surgiram vezes ou outras, eu me deparei com a pior fase da coisa toda. Passei pelo término de um relacionamento importante, tive outro relacionamento que também pareceu importante e recorrente houve o término, fui demitida da empresa que trabalhava, ao ir ao médico soube que estava doente, com meus pulmões comprometidos e talvez como uma projeção de todas as perdas eu perdi a minha identidade. No momento eu simplesmente achei a perda do documento inconveniente, para só hoje concluir que se tratava mesmo de uma perda de identidade.

Foi após o Thorrablót desse ano (24/07 – Ritual de Thor) que ao conversar com um amigo com um humor digno de deuses loucos, como Loki, que eu afirmei que eu não sabia como estava conseguindo manter o bom humor após tantas perdas e tantas crises, uma seguida da outra. E meu amigo simplesmente colocou a mão em meus ombros, sorriu e disse: “Não fique absurdamente triste por isso, quando nós chegamos ao ponto zero da vida é onde nós temos todas as condições de criar um mundo para nós novinho em folha”. E eu adorei a idéia. O único grande problema foi perceber que eu não sabia, foi perceber que eu não tinha parado em nenhum momento até então para tentar conceber ou imaginar o que seria para mim um mundo novinho em folha.

E essa foi a minha primeira jornada, a jornada para dentro de mim mesma para saber o que seria aquele mundo novo, aquela vida que eu queria viver. Angustiei porque eu achei que não sabia o que seria essa vida, estive com medo de tomar decisões e escolhas erradas. Eu queria saber o que queria o meu ser mais profundo. E só há pouco eu fui perceber que isso estava intimamente ligado a minha operação. Não me bastava apenas seguir, não me bastava apenas desejar, esse desejo tinha que vir do profundo da minha alma ou eu não me movimentaria, ou eu não conseguiria criar um mundo novinho em folha pra mim de acordo com os meus anseios mais profundos.

Eu deixei de lado muitas coisas que antes eram muito importantes, alguns amigos não conseguiram compreender muito bem meus novos pensamentos, alguns amigos nem conseguiriam entender porque eu tomei um caminho espiritual para me auxiliar nisso muito mais simples e menos caótico do que o que eu estava acostumada a usar. E a vida me apresentou novas pessoas, que me deram novas idéias, me indicaram novas coisas, me fizeram pensar em experiências diferentes num nível interior e espiritual. Dia após dia tenho experimentado um pouco desse saber, desse anseio da minha alma. E garanto que se eu tivesse tido o sonho que eu tive hoje a algum tempo atrás, eu não titubearia em aceitar conhecer a história do mundo dando em troca a minha vida por isso.

Mas a vida não tem que ser o preço do conhecimento e foi isso que eu aprendi. Uma amiga me disse que enquanto não alcançarmos a individuação (termo Junguiano), provavelmente nós teremos que voltar pra cá muitas e muitas vezes. Não sei sobre vidas passadas ou futuras, sei apenas que já que eu tenho que estar nesse mundo de qualquer jeito, que eu viva como uma guerreira (referindo-me a Castañeda) e que eu faça o melhor de mim. E nesse momento de recuo, porque eu estou recuada, como digo para alguns, estou na caverna, eu estou exatamente fazendo essa busca, a busca de mim mesma. Cansei de ser uma persona, cansei de dizer que eu sei, cansei de ser a pessoa que eu era. Ainda estou dormindo, como Sigrdrífa, esperando pela a Aurora da minha vida, esperando meu despertar e enquanto isso não acontece, permanecerei aqui no meu casulo.

Pela primeira vez em toda vida eu escolhi um layout claro para um blog meu. Intuitivamente é assim que eu acho que estou nesse momento, acho que estou combinando mais com a claridade, com o dia, com o sol. Isso tem sido tão visível que após anos trocando o dia pela noite (o que meu trabalho também ajudou), hoje eu quero usar a noite para deitar e sonhar. Porque eu descobri que amo o sol da manhã, amo a luz quentinha que invade meu quarto pela manhã, amo o frescor que sopra no vento, gosto do cheiro da manhã. E creio estar muito desejando a manhã da minha vida, com o seu sol novo e quentinho, com o cheiro do orvalho, com a brisa cheia de cheiro de terra.

E por que escolher o nome do blog como o barco voador que eu dispensei em meu sonho? Talvez porque o barco voador pode deixar o porto e navegar pelo oceano, como também pode alçar vôo e navegar pelos céus. Porque ele também me diz que eu posso alcançar outra margem, outro continente, outra terra e que eu também posso alcançar outros planetas, tocar as estrelas e dançar com a lua no céu. Porque o meu barco voador pode ancorar para que os meus pés toquem a terra, os meus olhos corram dentro da sabedoria do mar e os meus sonhos podem ser tão infinitos quanto o próprio céu e que com tudo isso eu ainda posso saber e depois contar toda a história do mundo. Talvez o meu barco voador pode ser apenas meu cérebro com seus alguns milhões de anos!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...